Gaguez: os mitos e os factos. O papel da Terapia da Fala

O Dia Mundial da Consciencialização para a Gaguez foi assinalado no AE Afonso de Paiva com a divulgação de uma informação destinada à comunidade que chama a atenção para ideias erradas acerca desta problemática, os comportamentos adequados e o papel da terapia da fala.

A informação essencial sobre este distúrbio da fala encontra-se no documento que a seguir apresentamos, elaborado pela terapeuta da fala do nosso Agrupamento, Liliana Lucas.

A LINGUAGEM

 

 

A Linguagem

 

Existe, desde sempre, o interesse em saber qual a relação entre a linguagem e o desenvolvimento da espécie humana. Depois de várias teorias ligadas à origem divina ou à invenção, a linguagem começa a ser encarada como uma capacidade que constitui uma diferença qualitativa entre os seres humanos e os primatas (Fromkin e Rodman, 1993).

O Homem é, por natureza, um comunicador. Segundo Sim-Sim (1998) a comunicação faz parte da sua condição de ser social, existindo uma mensagem percebida pelos pares da comunidade em que se insere, qualquer que seja a palavra, o movimento, a expressão ou o momento de agitação ou silêncio que deixa transparecer. A Linguagem pode ser definida como “um sistema complexo e dinâmico de símbolos convencionados, usado em modalidades diversas para [o Homem] comunicar e pensar” (A. S.H.A. 1983, citado por Sim-Sim, 1998) e é considerada uma forma de clarificar, reforçar ou distorcer cada mensagem, utilizando, também, mecanismos extralinguísticos (como o gesto ou a expressão facial) e paralinguísticos (como a entoação, as pausas, a velocidade e o ritmo das produções).

 

Desenvolvimento da Linguagem

 

Qualquer criança, em condições normais, adquire a língua da comunidade a que pertence, bastando estar exposta à mesma, para que ocorra aquisição (natural e espontânea) da linguagem – independentemente da raça e da cultura de cada grupo social.

O desenvolvimento da linguagem ocorre a partir do momento em que a criança entra em contacto com o meio linguístico que a rodeia, tendo como base fatores biológicos inatos que a preparam para estas aquisições naturais e espontâneas. Esta sucessão de aquisições permite delinear uma série de fases.

No que diz respeito ao processo de discriminação auditiva, a autora Inês Sim-Sim (1998) identifica, entre o nascimento e os cinco anos de idade, os seguintes marcos no desenvolvimento:

  • Nascimento: Reação a variações acústicas relacionadas com a voz humana; reflexo de orientação e localização da fonte sonora; preferência pela voz materna;
  • 1 -2 Semanas: Distinção entre voz e outros sons;
  • 1-2 Meses: Discriminação na base do fonema;
  • 2-4 Meses: Discriminação entre vozes que expressam ternura ou zanga;
  • 5-6 Meses: Identificação de padrões de entoação e ritmo;
  • 9-13 Meses: Compreensão de sequências fonológicas em contexto;
  • 10-22 Meses: Associação de sílabas sem significado a objetos;
  • 36 Meses: Discriminação de nível adulto para os sons da língua materna;
  • 4-5 Anos: Indicadores de consciência fonológica.

Relativamente ao desenvolvimento vocal, Sim-Sim (1998) distingue as seguintes etapas do desenvolvimento, correspondendo as quatro primeiras ao período pré-linguístico:

  • Nascimento (etapa 1): choro como atividade reflexa e sons de tipo vegetativo;
  • 2 Meses (etapa 2): palreio e riso;
  • 3-9 Meses (etapa 3): palreio e lalação;
  • 9-14 Meses (etapa 4): lalação, sílabas não reduplicadas e cadeias prosódicas;
  • 9-14 Meses: lalação, gíria entoacional, primeiras palavras, ecolália;
  • 4-7 Anos: domínio articulatório de todos os sons da língua materna.

 

O Desenvolvimento da Linguagem aos 5 anos de idade

O período pré-escolar (0-5 anos) é considerado um tempo de aquisições lexicais e conceptuais de grande rapidez e naturalidade. De uma forma geral, segundo Owens (1984, citado por Faria, 1993), a partir dos cinco anos de idade a criança é capaz de discutir sentimentos, ter boa estruturação temporal, ter adquirido 90% da gramática, comunicar os seus pensamentos, ter boa compreensão e aumentar o seu campo lexical - até aos doze anos de idade deverá ter um vocabulário passivo de 50000 palavras.

 

1. Desenvolvimento fonológico

O desenvolvimento da fonologia, na faixa etária em causa, pressupõe a ausência de alterações articulatórias consistentes e significativas, tendo em conta que todos os fonemas da nossa língua deverão estar adquiridos ou em fase final de aquisição, não sendo esperada a ocorrência de processos fonológicos evidentes. Não deverão ocorrer, também, dificuldades na repetição de palavras.

Nesta idade inicia-se o desenvolvimento metafonológico, de extrema importância, tendo em conta a sua estreita ligação com a aprendizagem da leitura e da escrita.

 

2. Desenvolvimento semântico

No que diz respeito a esta área da linguagem, por volta dos cinco anos de idade, a criança deve já ter realizado aquisições que lhe permitam demonstrar uma diversidade lexical adequada. Segundo Gelman (1979, citado por Sim-Sim, 1998), nesta fase, a criança acrescenta por dia uma média de nove palavras ao seu vocabulário. É capaz de aceder facilmente às palavras no discurso, como na nomeação, e formular corretamente uma narrativa (tendo em conta todos os aspetos implicados nesta capacidade, nomeadamente a sequenciação espácio-temporal. A definição de conceitos - através de atributos, da sua função ou por categorização - é também característica desta faixa etária, podendo ser considerada uma função indicativa do desenvolvimento metassemântico.

 

3. Desenvolvimento sintático

Relativamente ao desenvolvimento normal da morfossintaxe, pode dizer-se que aos cinco anos a criança deve utilizar adequadamente morfemas flexionais e derivacionais. Para além de revelar compreender e produzir estruturas morfossintáticas mais complexas, começa a verificar-se a deteção e correção de frases incorretas do ponto de vista da morfologia e sintaxe, aspetos que dizem respeito ao metadesenvolvimento das mesmas áreas.

 

4. Desenvolvimento pragmático

No que diz respeito ao desenvolvimento da pragmática, nesta idade, deverão verificar-se características adquiridas anteriormente como a capacidade de iniciar o tópico, manter e terminar de forma adequada, realizar correta troca de turnos, pedir clarificações, chamar a atenção adequadamente ou sequenciar, de forma lógica, a narrativa - capacidades que, embora adquiridas muito precocemente, são de extrema importância em todas as atividades linguísticas, em todas as idades. Outras capacidades emergentes nesta faixa etária dizem respeito ao desenvolvimento da metapragmática.

 

5. Desenvolvimento metalinguístico

Segundo Sua-Kay e Santos (2003), a influência do domínio da linguagem oral na aprendizagem escolar é cada vez melhor fundamentada, especialmente no que se refere à relação entre domínio fonológico e primeiras aquisições da leitura e escrita. Também se reconhece que a capacidade de pensar e usar a linguagem nos seus aspetos semânticos e morfossintáticos é fundamental para uma leitura fluente e para a compreensão e assimilação da informação dada nas aulas. Quando entra para a escola, a criança deverá dominar o sistema linguístico nos seus diferentes subsistemas, tal como foi anteriormente referido. O conhecimento implícito das suas regras, adquirido ao longo dos anos que antecedem a idade escolar, vai-se tornando gradualmente consciente/explícito. É este conhecimento que permite a aprendizagem escolar e que é designado por metalinguagem, ou seja, o conhecimento e reflexão sobre a própria linguagem.

 

Liliana Lucas, terapeuta da fala

 

Bibliografia

 

Faria, I.H. (1993). Language Develoment: an Introduction. Columbus, Ohio: Charles E. Merrill P. Company.

Fromkin, V., e Rodman, R. (1993). Introdução à Linguagem. Coimbra: Livraria Almedina.

Sim-Sim, I. (1998). Desenvolvimento da Linguagem. Lisboa: Universidade Aberta.

Sua-Kay, E., Santos, M.E. (2003). GOL_E – Grelha de Observação da Linguagem, nível escolar. Lisboa: Escola Superior de Saúde do Alcoitão.

 

Fotografias retiradas da Internet

AE Afonso de Paiva assinala Dia Mundial da Voz

O Dia Mundial da Voz é assinalado a 16 de abril. A sua comemoração teve início em 2003, por iniciativa do Dr. Mário Andrea, Diretor do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital Santa Maria, que sugeriu a criação deste dia na primeira reunião da Sociedade Europeia de Laringologia (European Society of Laringology) da qual, na altura, era presidente. Tem como principal objetivo dar visibilidade à Voz, articulando ações de caráter assistencial, cultural e de ensino.

O grupo de profissionais da voz, onde se destacam os professores, cantores, atores, operadores de call center, possui poucos conhecimentos acerca dos principais fatores de risco, quais os comportamentos a adotar e as doenças que podem advir do mau uso e abuso vocais.

Para tal, foi divulgado, no Agrupamento de Escolas Afonso de Paiva,um documento que reúne toda essa informação e onde se podem conhecer alguns comportamentos vocais abusivos.O uso incorreto da voz, o esforço ou o abuso vocal podem provocar o aparecimento de lesões benignas numa ou nas duas cordas vocais, que interferem com a vibração, originando rouquidão, voz áspera e cansaço vocal. As lesões mais frequentes são os nódulos vocais. O seu tratamento exige repouso vocal e reabilitação (terapia da fala), com a qual se procura melhorar a técnica vocal, reduzindo ou anulando o esforço e a tensão do aparelho fonatório.

Qualquer rouquidão que persista por mais de duas semanas deve ser alvo de avaliação em Terapia da Fala e /ou Otorrinolaringologia.

Oiça, cuide e goste da sua voz!

Quando deve recorrer à Terapia da Fala?

 

O Dia Europeu da Terapia da Fala foi criado em 2004 com o objetivo de chamar a atenção para a profissão em toda a Europa, sensibilizando os cidadãos para as perturbações da comunicação, o seu efeito sobre a saúde humana, os direitos dos pacientes com perturbações da comunicação e a forma de os ajudar. É celebrado a 6 de março e este ano, 2017, o tema escolhido para sensibilizar a comunidade foi a Disfagia - perturbação da deglutição.

Em Portugal estima-se que haja mais de 80 mil pessoas diagnosticadas com disfagia, uma perturbação que se caracteriza por dificuldade em engolir alimentos sólidos, líquidos e até água. A disfagia causa impacto na qualidade de vida da pessoa que tem essa perturbação e dos que lhe são próximos.

 

O Terapeuta da Fala

O Terapeuta da Fala é o profissional responsável pela prevenção, avaliação, intervenção e estudo científico das perturbações da comunicação humana, englobando não só todas as funções associadas à compreensão e expressão da linguagem oral e escrita, mas também outras formas de comunicação não verbal. O Terapeuta da Fala intervém, ainda, ao nível da deglutição (passagem segura de alimentos e bebidas através da orofaringe de forma a garantir uma nutrição adequada). Avalia e intervém em indivíduos de todas as idades, desde recém-nascidos a idosos, tendo por objetivo geral otimizar as capacidades de comunicação e/ou deglutição do indivíduo, melhorando, assim, a sua qualidade de vida (ASHA, 2007).

 

O Terapeuta da Fala pode exercer as suas funções em Instituições de prestação de cuidados de saúde primários, diferenciados e continuados (centros de saúde, hospitais, centros de medicina de reabilitação), instituições particulares de solidariedade social, instituições de reinserção social, centros de dia e lares de idosos, creches e jardins-de-infância, escolas do ensino básico e secundário, estabelecimentos de ensino particular e cooperativo, área da investigação e/ou docência, unidades de investigação, universidades públicas e privadas, consultórios/gabinetes/clínicas privadas, domicílio dos utentes e empresas de cuidados ao domicílio.

 

Campo de atuação

Desde o nascimento, o Terapeuta da Fala tem um papel fundamental para o desenvolvimento harmonioso do bebé. Nas Unidades de Cuidados Neonatais presta serviço na área da alimentação e comunicação ao bebé recém-nascido e aos seus pais.

Em crianças em idade pré-escolar a sua intervenção centra-se na promoção das competências linguísticas, vocais e de comunicação, bem como na intervenção das suas perturbações.

Tem um papel fundamental, em crianças e jovens em idade escolar na intervenção das perturbações da leitura e da escrita, na potencialização da comunicação e na gaguez.

Na idade adulta, o seu foco  de intervenção é maioritariamente em perturbações da linguagem adquiridas, patologias vocais e da deglutição. Tem também um papel preponderante na promoção das competências da comunicação e da voz nos mais diversos profissionais.

 

Áreas de Intervenção

 

COMUNICAÇÃO

Doenças degenerativas do Sistema Nervoso Central (SNC), autismo e alguns síndromes podem condicionar a comunicação da criança/adulto, impossibilitando o uso da fala e/ou linguagem escrita para comunicar. Neste sentido, o Terapeuta da Fala intervém adequando e instalando um sistema aumentativo e/ou alternativo à comunicação.

  

LINGUAGEM ORAL

A linguagem é considerada a forma de comunicação por excelência e exclusiva do ser humano, permitindo a troca de ideias, a expressão de sentimentos, a interação e a aprendizagem.

A Linguagem Oral compreende a componente expressiva e compreensiva e é composta por 4 elementos linguísticos: a semântica (reconhecimento, significado e relação entre as palavras), a morfossintaxe (conhecimento implícito das regras sintáticas e morfológicas necessárias para a construção de frases gramaticais), a fonológica (reconhecimento dos sons da fala) e a pragmática (capacidade de adequação da linguagem ao contexto). As alterações da linguagem oral podem ocorrer durante o desenvolvimento da criança ou após acidentes neurológicos, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC), Traumatismos Crânio-encefálicos (TCE) entre outros.

O Terapeuta da Fala intervém na aquisição ou reabilitação da linguagem oral, avaliando a(s) componente(s) afetada(s) e as áreas linguísticas comprometidas.

 

LINGUAGEM ESCRITA

A linguagem escrita, ao contrário da linguagem oral, pressupõe uma aprendizagem explícita dos grafemas que convertem a linguagem oral em linguagem escrita. O Terapeuta da Fala intervém nos casos de dificuldade de aprendizagem da leitura e escrita.

 

 ARTICULAÇÃO

A articulação verbal consiste na produção oral dos fonemas/sons. Para uma articulação correta dos sons é necessário que as estruturas e os músculos orofaciais estejam intactos. Alterações neurológicas (como os Acidentes Vasculares Cerebrais ou os Traumatismos Crânio-Encefálicos) ou imaturidade dos músculos orofaciais são algumas das causas de alterações na articulação.



FLUÊNCIA

A fluência consiste na capacidade de encadear os sons da fala de forma contínua, possibilitando assim um discurso fluente, com ritmo e pausas adequadas. Um discurso não fluente caracteriza-se por bloqueios no início da emissão, repetições ou prolongamentos de sílabas e pausas excessivas que se produzem numa gaguez.

 

VOZ

A voz é um mecanismo fisiológico que permite a emissão de som durante a fala. Alteração na qualidade vocal indica alteração ao nível da estrutura ou do movimento das cordas vocais, que pode ter origem orgânica (nódulos, pólipos) ou funcional (mau uso ou abuso vocal).

O Otorrinolaringologista é o médico responsável pela realização do exame e diagnóstico da causa da alteração vocal. O Terapeuta da Fala intervém na prevenção da sintomatologia, na cessação dos maus usos e abusos vocais e na prática de saúde vocal.

  

DEGLUTIÇÃO

A deglutição consiste na capacidade de ingestão de alimentos e é dividida em 4 fases (preparatória, oral, faríngea e esofágica). Por questões neurológicas ou mecânicas pode ocorrer dificuldades em uma ou mais fases da deglutição, comprometendo assim uma nutrição e hidratação segura. O Terapeuta da Fala avalia e intervém na reabilitação da deglutição.

 


MOTRICIDADE OROFACIAL

Relaciona-se com o desenvolvimento, aperfeiçoamento e reabilitação dos órgãos fonoarticulatórios e região cervical, bem como das respetivas funções estomatognáticas (a sucção, a mastigação, a respiração e a fala).

 

Não é necessário ter um problema ou uma doença para procurar um Terapeuta da Fala. Muito menos há uma idade definida para o consultar.

A Associação Portuguesa de Terapeutas da Fala recomenda que, sempre que sinta que a sua forma de comunicar ou falar condiciona a sua vida social ou profissional, ou que sinta algum tipo de ansiedade sobre o desenvolvimento da linguagem do seu filho, consulte um Terapeuta da Fala. O Terapeuta da Fala ajudá-lo-á a compreender o que faz parte de um desenvolvimento “saudável” e o que necessita de uma intervenção profissional.

 

A Terapeuta da Fala, Liliana Lucas

 

Fontes:               

www.oterapeutadafalapodefazeradiferenca.org

Associação Portuguesa de Terapia da Fala

Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala

Imagens retiradas da Internet

 

Dados adicionais