Dia Europeu da Terapia da Fala – “O Terapeuta da Fala pode fazer a diferença na sua vida”

 

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O Dia Europeu da Terapia da Fala (6 de março) foi criado em 2004 com o objetivo de chamar a atenção para a profissão em toda a Europa, sensibilizando os cidadãos para as perturbações da comunicação, o seu efeito sobre a saúde humana, os direitos dos pacientes com perturbações da comunicação e a forma de os ajudar.

O Terapeuta da Fala é o profissional responsável pela prevenção, avaliação, intervenção e estudo científico das perturbações da comunicação humana, englobando não só todas as funções associadas à compreensão e expressão da linguagem oral e escrita, mas também outras formas de comunicação não verbal. O Terapeuta da Fala intervém, ainda, ao nível da deglutição (passagem segura de alimentos e bebidas através da orofaringe de forma a garantir uma nutrição adequada). Avalia e intervém em indivíduos de todas as idades, desde recém-nascidos a idosos, tendo por objetivo geral otimizar as capacidades de comunicação e/ou deglutição do indivíduo, melhorando, assim, a sua qualidade de vida (ASHA, 2007).

O seu campo de atuação vai desde o nascimento, nos cuidados neonatais, idade pré-escolar, idade escolar e idade adulta.

As áreas de intervenção são a comunicação, linguagem oral, linguagem escrita, articulação verbal, fluência, voz, deglutição e motricidade orofacial.

Não é necessário ter um problema ou uma doença para procurar um Terapeuta da Fala. Muito menos há uma idade definida para o consultar.

A Associação Portuguesa de Terapeutas da Fala recomenda que, sempre que sinta que a sua forma de comunicar ou falar condiciona a sua vida social ou profissional, ou que sinta algum tipo de ansiedade sobre o desenvolvimento da linguagem do seu filho, consulte um Terapeuta da Fala. O Terapeuta da Fala ajudá-lo-á a compreender o que faz parte de um desenvolvimento “saudável” e o que necessita de uma intervenção profissional.

A Terapia da Fala é uma valência do Agrupamento de Escolas Afonso de Paiva, pelo que se sentir necessidade ou tiver dúvidas, não hesite em contactar-nos.

A influência da música no desenvolvimento da criança

Desde sempre na vida do Homem, a música assume um papel fundamental na comunicação, na transmissão de sentimentos, na transmissão de conhecimentos, tradições e valores, mas também no desenvolvimento de atividades sociais.

Nos últimos 15 anos, muito se tem investigado acerca da influência da música no desenvolvimento da criança, bem como na possibilidade de ajudar na recuperação de lesões no cérebro, por exemplo, depois de um Acidente Vascular Cerebral. Na verdade, o nosso cérebro parece ser moldado pelas experiências proporcionadas nos primeiros anos de vida, e o cérebro de um músico tem características diferentes do cérebro de uma pessoa que não tenha tido contacto com a música na infância. Os estudos realizados até hoje provam a influência da música nas capacidades comunicativas da criança, na sua autoconfiança, na relação entre os estudantes, nas suas capacidades espácio-temporais, no desenvolvimento cognitivo, na inteligência verbal, nas funções executivas, na memória e na aprendizagem de línguas estrangeiras. No cérebro, quando a estimulação é precoce e continuada, as áreas responsáveis pela linguagem e pela música são as mesmas – tanto no hemisfério esquerdo (responsável pela compreensão e expressão da linguagem), como no hemisfério direito (responsável pela melodia da nossa voz).

No que diz respeito à linguagem, diversos estudos têm sido realizados, nomeadamente, para estudar o efeito da música no desenvolvimento da consciência fonológica, da consciência fonémica e outros preditores da aprendizagem da leitura. A consciência fonológica pode ser definida como o conhecimento da estrutura das palavras – nos últimos anos do jardim de infância, a criança deve ser capaz de se abstrair do significado das palavras para pensar, discriminar, comparar e manipular os sons que as compõem e, dessa forma, conseguir realizar tarefas como dividir frases em palavras, encontrar ou evocar palavras que rimam, dividir palavras em sílabas, encontrar palavras que comecem pela mesma sílaba ou som, entre outras. Estas atividades são fundamentais para a aprendizagem da leitura e da escrita mais tarde, no seu percurso escolar. Por este motivo, a influência da música nas capacidades de consciência fonológica assume um papel muito importante.

A música e a linguagem são dois estímulos auditivos, estruturados de uma forma muito semelhante (ambas consistem num determinado número de sons que se organizam segundo determinadas regras) e que utilizam o mesmo sistema auditivo e aparelho vocal. A aprendizagem destes elementos musicais e linguísticos parece ser semelhante, recorrendo aos mesmos processos auditivos e a partilha destes mecanismos parece ser responsável pela influência da música no desenvolvimento das capacidades de consciência fonológica.

Três investigadoras da Universidade de Lisboa1 e da Universidade de Aveiro2 (Maria Manuel Vidal1, Marisa Lousada2 e Marina Vigário1, 2017) desenvolveram em Portugal um estudo que demonstra que a música influencia as referidas capacidades logo aos 3 anos de idade. Num jardim de infância, as crianças desta idade foram divididas de forma aleatória em dois grupos e, durante um ano letivo, tiveram aulas de música (Grupo 1) e aulas de artes visuais (Grupo 2). A avaliação da consciência fonológica realizada no início do ano não revelava quaisquer diferenças entre os dois grupos. No entanto, no final do ano, o grupo de música teve um desenvolvimento muito mais acentuado, demonstrando que o estímulo musical foi eficaz no desenvolvimento de capacidades linguísticas. Outros estudos realizados em Inglaterra, França, Canadá ou nos Estados Unidos, entre outros países, demonstram este efeito em crianças mais velhas, entre os 4 e os 9 anos de idade.

Estes resultados demonstram como é importante a estimulação precoce em aulas de música, mas também a importância de introduzir a música no dia a dia das crianças, em casa, no jardim de infância, ou em contexto terapêutico, tendo um potencial muito grande a vários níveis do desenvolvimento infantil.

 

Liliana Lucas, terapeuta da fala

 

(fotografias retiradas da Internet)

 

Gaguez: os mitos e os factos. O papel da Terapia da Fala

O Dia Mundial da Consciencialização para a Gaguez foi assinalado no AE Afonso de Paiva com a divulgação de uma informação destinada à comunidade que chama a atenção para ideias erradas acerca desta problemática, os comportamentos adequados e o papel da terapia da fala.

A informação essencial sobre este distúrbio da fala encontra-se no documento que a seguir apresentamos, elaborado pela terapeuta da fala do nosso Agrupamento, Liliana Lucas.

A LINGUAGEM

 

 

A Linguagem

 

Existe, desde sempre, o interesse em saber qual a relação entre a linguagem e o desenvolvimento da espécie humana. Depois de várias teorias ligadas à origem divina ou à invenção, a linguagem começa a ser encarada como uma capacidade que constitui uma diferença qualitativa entre os seres humanos e os primatas (Fromkin e Rodman, 1993).

O Homem é, por natureza, um comunicador. Segundo Sim-Sim (1998) a comunicação faz parte da sua condição de ser social, existindo uma mensagem percebida pelos pares da comunidade em que se insere, qualquer que seja a palavra, o movimento, a expressão ou o momento de agitação ou silêncio que deixa transparecer. A Linguagem pode ser definida como “um sistema complexo e dinâmico de símbolos convencionados, usado em modalidades diversas para [o Homem] comunicar e pensar” (A. S.H.A. 1983, citado por Sim-Sim, 1998) e é considerada uma forma de clarificar, reforçar ou distorcer cada mensagem, utilizando, também, mecanismos extralinguísticos (como o gesto ou a expressão facial) e paralinguísticos (como a entoação, as pausas, a velocidade e o ritmo das produções).

 

Desenvolvimento da Linguagem

 

Qualquer criança, em condições normais, adquire a língua da comunidade a que pertence, bastando estar exposta à mesma, para que ocorra aquisição (natural e espontânea) da linguagem – independentemente da raça e da cultura de cada grupo social.

O desenvolvimento da linguagem ocorre a partir do momento em que a criança entra em contacto com o meio linguístico que a rodeia, tendo como base fatores biológicos inatos que a preparam para estas aquisições naturais e espontâneas. Esta sucessão de aquisições permite delinear uma série de fases.

No que diz respeito ao processo de discriminação auditiva, a autora Inês Sim-Sim (1998) identifica, entre o nascimento e os cinco anos de idade, os seguintes marcos no desenvolvimento:

  • Nascimento: Reação a variações acústicas relacionadas com a voz humana; reflexo de orientação e localização da fonte sonora; preferência pela voz materna;
  • 1 -2 Semanas: Distinção entre voz e outros sons;
  • 1-2 Meses: Discriminação na base do fonema;
  • 2-4 Meses: Discriminação entre vozes que expressam ternura ou zanga;
  • 5-6 Meses: Identificação de padrões de entoação e ritmo;
  • 9-13 Meses: Compreensão de sequências fonológicas em contexto;
  • 10-22 Meses: Associação de sílabas sem significado a objetos;
  • 36 Meses: Discriminação de nível adulto para os sons da língua materna;
  • 4-5 Anos: Indicadores de consciência fonológica.

Relativamente ao desenvolvimento vocal, Sim-Sim (1998) distingue as seguintes etapas do desenvolvimento, correspondendo as quatro primeiras ao período pré-linguístico:

  • Nascimento (etapa 1): choro como atividade reflexa e sons de tipo vegetativo;
  • 2 Meses (etapa 2): palreio e riso;
  • 3-9 Meses (etapa 3): palreio e lalação;
  • 9-14 Meses (etapa 4): lalação, sílabas não reduplicadas e cadeias prosódicas;
  • 9-14 Meses: lalação, gíria entoacional, primeiras palavras, ecolália;
  • 4-7 Anos: domínio articulatório de todos os sons da língua materna.

 

O Desenvolvimento da Linguagem aos 5 anos de idade

O período pré-escolar (0-5 anos) é considerado um tempo de aquisições lexicais e conceptuais de grande rapidez e naturalidade. De uma forma geral, segundo Owens (1984, citado por Faria, 1993), a partir dos cinco anos de idade a criança é capaz de discutir sentimentos, ter boa estruturação temporal, ter adquirido 90% da gramática, comunicar os seus pensamentos, ter boa compreensão e aumentar o seu campo lexical - até aos doze anos de idade deverá ter um vocabulário passivo de 50000 palavras.

 

1. Desenvolvimento fonológico

O desenvolvimento da fonologia, na faixa etária em causa, pressupõe a ausência de alterações articulatórias consistentes e significativas, tendo em conta que todos os fonemas da nossa língua deverão estar adquiridos ou em fase final de aquisição, não sendo esperada a ocorrência de processos fonológicos evidentes. Não deverão ocorrer, também, dificuldades na repetição de palavras.

Nesta idade inicia-se o desenvolvimento metafonológico, de extrema importância, tendo em conta a sua estreita ligação com a aprendizagem da leitura e da escrita.

 

2. Desenvolvimento semântico

No que diz respeito a esta área da linguagem, por volta dos cinco anos de idade, a criança deve já ter realizado aquisições que lhe permitam demonstrar uma diversidade lexical adequada. Segundo Gelman (1979, citado por Sim-Sim, 1998), nesta fase, a criança acrescenta por dia uma média de nove palavras ao seu vocabulário. É capaz de aceder facilmente às palavras no discurso, como na nomeação, e formular corretamente uma narrativa (tendo em conta todos os aspetos implicados nesta capacidade, nomeadamente a sequenciação espácio-temporal. A definição de conceitos - através de atributos, da sua função ou por categorização - é também característica desta faixa etária, podendo ser considerada uma função indicativa do desenvolvimento metassemântico.

 

3. Desenvolvimento sintático

Relativamente ao desenvolvimento normal da morfossintaxe, pode dizer-se que aos cinco anos a criança deve utilizar adequadamente morfemas flexionais e derivacionais. Para além de revelar compreender e produzir estruturas morfossintáticas mais complexas, começa a verificar-se a deteção e correção de frases incorretas do ponto de vista da morfologia e sintaxe, aspetos que dizem respeito ao metadesenvolvimento das mesmas áreas.

 

4. Desenvolvimento pragmático

No que diz respeito ao desenvolvimento da pragmática, nesta idade, deverão verificar-se características adquiridas anteriormente como a capacidade de iniciar o tópico, manter e terminar de forma adequada, realizar correta troca de turnos, pedir clarificações, chamar a atenção adequadamente ou sequenciar, de forma lógica, a narrativa - capacidades que, embora adquiridas muito precocemente, são de extrema importância em todas as atividades linguísticas, em todas as idades. Outras capacidades emergentes nesta faixa etária dizem respeito ao desenvolvimento da metapragmática.

 

5. Desenvolvimento metalinguístico

Segundo Sua-Kay e Santos (2003), a influência do domínio da linguagem oral na aprendizagem escolar é cada vez melhor fundamentada, especialmente no que se refere à relação entre domínio fonológico e primeiras aquisições da leitura e escrita. Também se reconhece que a capacidade de pensar e usar a linguagem nos seus aspetos semânticos e morfossintáticos é fundamental para uma leitura fluente e para a compreensão e assimilação da informação dada nas aulas. Quando entra para a escola, a criança deverá dominar o sistema linguístico nos seus diferentes subsistemas, tal como foi anteriormente referido. O conhecimento implícito das suas regras, adquirido ao longo dos anos que antecedem a idade escolar, vai-se tornando gradualmente consciente/explícito. É este conhecimento que permite a aprendizagem escolar e que é designado por metalinguagem, ou seja, o conhecimento e reflexão sobre a própria linguagem.

 

Liliana Lucas, terapeuta da fala

 

Bibliografia

 

Faria, I.H. (1993). Language Develoment: an Introduction. Columbus, Ohio: Charles E. Merrill P. Company.

Fromkin, V., e Rodman, R. (1993). Introdução à Linguagem. Coimbra: Livraria Almedina.

Sim-Sim, I. (1998). Desenvolvimento da Linguagem. Lisboa: Universidade Aberta.

Sua-Kay, E., Santos, M.E. (2003). GOL_E – Grelha de Observação da Linguagem, nível escolar. Lisboa: Escola Superior de Saúde do Alcoitão.

 

Fotografias retiradas da Internet

Dados adicionais